filosofia

A contribuição do pensamento grego para a formação moral - João Cardoso de Castro

Muito pode se falar sobre o certo e o errado, e em nosso dia-a-dia julgamos, consciente ou inconscientemente, pessoas a nossa volta, seus hábitos e comportamentos. Quando se trata de filosofia, por sua vez, questiona-se como deveríamos viver, quais os comportamentos ideais e se existe uma disciplina filosófica que poderíamos chamá-la de prática, esta seria, sem dúvida, a Ética. Toda reflexão que pretende identificar a melhor forma de viver e conviver se articula, necessariamente, com o estudo da moral. 

É lugar comum a ideia de que a crise ética que vivemos nos dias de hoje tem sua origem na perda de valores e normas que, de alguma forma, vem à tona no período moderno, com o surgimento de sociedades complexas, com uma pluralidade de crenças, ideologias e comportamentos. O advento da Reforma, por exemplo, (e das inúmeras correntes protestantes oriundas deste processo) cria uma cisão no Cristianismo, que fundamentava-se como principal referência ética desde a Antiguidade. Outros sugerem que esta crise "espiritual", sem precedentes, que atinge a civilização ocidental seja fruto da irrefreável produção de bens materiais e simbólicos que, amarrados a uma visão liberal, é capaz de fazer “brotar” em nós uma ambição quase capilar por toda esta parafernália produzida. 

A vida não é terrível? - Guimarães Rosa

João Cardoso de... sex, 17/04/2015 - 18:39

“Tem uma verdade que se carece de aprender, do encoberto, e que ninguém não ensina: o bêco para a liberdade se fazer. Sou um homem ignorante. Mas, me diga o senhor: a vida não é cousa terrível? (…) O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.” (Guimarães Rosa, “Grande Sertão: Veredas”, páginas 280 e 290)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Judiciário e o desinteresse social - Leonardo Figueiredo Barbosa

É interessante e lastimável observar como a maioria dos cidadãos de nosso país dá pouca importância ao funcionamento do Poder Judiciário. É bem verdade que esta falta de interesse não ocorre exclusivamente em relação a este poder, padecemos de uma falta de interesse por debater aprofundadamente assuntos mais sérios – e estas duas questões estão significativamente relacionadas, como esta coluna tentará demonstrar.

Caso você tenha alguma dúvida sobre o descaso que demonstramos com assuntos de extrema relevância social, faça um teste: pergunte a um familiar, vizinho, colega de trabalho – ou qualquer pessoa com quem tenha uma relação mais próxima – qual é a opinião (e os motivos, razões e justificativas que fundamentam tal opinião) dela sobre os seguintes assuntos: o que pode ou não ser caracterizado como racismo? A Lei da Anistia – que anistiou os crimes políticos ou conexos durante o período da ditadura militar – deve ser aplicada mesmo em casos de tortura? É possível o casamento entre pessoas do mesmo sexo? Pode uma gestante interromper a gravidez em caso de anencefalia do feto? Pessoas jurídicas podem fazer doações para as campanhas eleitorais?

"...e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal"

No primeiro trecho, o mote da consagrada MIT (Massachusetts Institute of Technology). No segundo, e a propósito desta "insinuação", que assenta-se na idéia universal de que a ciência moderna e seus infalíveis métodos detém a capacidade de descortinar a realidade, o filósofo dinamarquês Kierkegaard relativiza tais pretensões, com uma sábia metáfora.
 
“(...) e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal.” 
Moto da comunidade científica, segundo mural do Massachusetts Institute of Technology 
 
“Se um dançarino desse saltos muito altos, poderíamos admirá-lo. Mas se ele tentasse dar a impressão de poder voar, o riso seria seu merecido castigo, mesmo se ele fosse capaz, na verdade, de saltar mais alto que qualquer outro dançarino. Saltos são atos de seres essencialmente terrestres, que respeitam a força gravitacional da Terra, pois que o salto é algo momentâneo. Mas o vôo nos faz lembrar os seres emancipados das condições telúricas, um privilégio reservado para as criaturas aladas...” (Kierkgaard)

Para que Filosofia? - João Cardoso de Castro

Discutir a importância da Filosofia na formação de administradores e contadores nos impõe um dos exercícios mais complexos da atividade filosófica, a saber: definir do que se trata esta disciplina. Inúmeras foram as vezes que me encontrei em situação embaraçosa diante da simples pergunta: o que é a Filosofia? Pois é! Nos corredores de qualquer curso de graduação de Filosofia sempre ouvimos brincadeiras como: “é coisa com a qual e sem a qual o mundo fica tal e qual...”. Nos “corredores da vida" a tal brincadeira toma uma forma mais radical, digamos assim, “não serve pra nada, pronto!”. Já tinha ouvido tanto isso que por vezes “balancei”, quase acreditando. De uns tempos pra cá, minha mente clareou de tal forma que hoje tenho certeza … é … não serve mesmo! Calma, deixe-me explicar melhor o que quero dizer. De fato ler isso em um texto de Filosofia deve soar no mínimo estranho.

Ética: um instrumento do desenvolvimento humano - Fernando A. D. Fernandes

O filósofo Teilhard de Chardin coloca no centro de suas especulações sobre o desenvolvimento humano o fenômeno da elevação da consciência, que receberia a contribuição da interação social entre os indivíduos e entre os grupos coletivos, células de um único corpo evolutivo que necessariamente devem se complementar avançando para um crescimento valorativo das potencialidades individuais e coletivas.

O homem, em geral, idealiza o mundo ao seu entorno equiparando-o à sua própria natureza e personalidade, construindo uma ética pessoal própria, moldando esta e a relacionando com o que observa ao seu redor, idealizando uma ética com base no comportamento de seus conviventes e da sociedade onde vive sua realidade, a qual compara à sua e que resulta em valores e princípios que utiliza como verdadeiros, tornando-se isto um dos principais problemas da modernidade, ou seja, a idealização de uma ética coletiva pautada na prática de valores pessoais ou a extensão dos valores pessoais como a verdade dos valores coletivos. 

Quem é você?

João Cardoso de... ter, 27/05/2014 - 16:07

Texto retirado do livro "Filosofia e Consciência" de Sérgio L. de C. Fernandes (grifo meu).

"Como pode haver "consciência de si", se todo objeto é uma opacidade e todo sujeito a sombra por ela projetada? O que eu uma vez chamei, erroneamente, de "consciência de si", era flatus vocis. O que há é uma distinção entre o que se repete nas identificações e as identificações que se repetem. O que se repete nas identificações é sempre a inconsciência sob alguma "forma". As identificações que se repetem são nossas mentiras sistemáticas. Ter um ponto de vista é simplesmente ser ignorante, ignorar o que se é, ignorar os "outros" pontos de vista, ser "alguém", ter uma identidade, estar identificado, estar apavorado com a perspectiva de deixar de existir, estar aterrorizado pela morte: é desejar, e estar por isso condenado a uma frustração irremediável, pois é estar no tempo, ter começo e fim, e estar localizado no espaço, estar aqui porque não se está ali. Quando respondemos à pergunta "Quem é você", apontamos sempre para um objeto. E não nos enganamos: jamais nos passa despercebido que estamos mentindo. Quem é você? O Professor Fulano. A Professora Fulana, o marido, a mulher, o pai, a mãe, o aluno, a aluna, o Diretor, aquele que faz isso, aquela que faz aquilo, o que sente isso, o que sente aquilo, o que tem tais e tais memórias, o filho ou a filha de Fulano e Sicrano; tudo isso nada mais é do que construção da mente, biológica e social. Essas construções jamais poderão ser o que alguém é, não porque possa haver alguém ali, onde há uma personalidade, mas porque o pensamento é a produção do falso em cadeia. Não há "identificações" verdadeiras. Aquilo que, ao ser conhecido, deixa de ser o que é, justamente por ter sido conhecido, é o Falso: trata-se do que jamais se revela tal qual é, mas sempre como não é — símbolo, o que está sempre no lugar de outra coisa. É uma ironia do que Heráclito chamou de "destino", que expressões como "eu consciente", "ego fortalecido", "bem estruturado" etc., sejam corriqueiras. Uma questão de "caráter". Por isso a resposta do sábio à pergunta sobre quem ele é só pode ser o silêncio. Ou então a mais longa das respostas: "Sou isto, e aquilo, e aquilo ...", indefinidamente."

Por que o Brasil é assim?

Neste texto, retirado do livro "O que faz o brasil, Brasil?", o antropólogo Roberto DaMatta discorre sobre a um dos mais salientes adjetivos do brasileiro: o nosso "jeitinho". Entre idas e vindas o autor enxerga nesta "malandragem", tipicamento brasileira, uma forma de navegação social que permite juntar o pessoal com o impessoal. Entre o "pode" e o "não pode", o brasileiro vê o "jeitinho".
 
"Entre a desordem carnavalesca, que permite e estimula o excesso, e a ordem, que requer a continência e a disciplina pela obediência estrita às leis, como é que nós, brasileiros, ficamos? Qual a nossa relação e a nossa atitude para com e diante de uma lei universal que teoricamente deve valer para todos? Como procedemos diante da norma geral, se fomos criados numa casa onde, desde a mais tenra idade, aprendemos que há sempre um modo de satisfazer nossas vontades e desejos, mesmo que isso vá de encontro às normas do bom senso e da coletividade em geral?
 
Num livro que escrevi – Carnavais, malandros e heróis – lancei a tese de que o dilema brasileiro residia numa trágica oscilação entre um esqueleto nacional feito de leis universais cujo sujeito era o indivíduo e situações onde cada qual se salvava e se despachava como podia, utilizando para isso o seu sistema de relações pessoais. Haveria assim, nessa colocacão, um verdadeiro combate entre leis que devem valer para todos e relações que evidentemente só podem funcionar para quem as tem. O resultado é um sistema social dividido e até mesmo equilibrado entre duas unidades sociais básicas: o indivíduo (o sujeito das leis universais que modernizam a sociedade) e a pessoa (o sujeito das relações sociais, que conduz ao pólo tradicional do sistema). Entre os dois, o coração dos brasileiros balança. E no meio dos dois, a malandragem, o  “jeitinho” e  o famoso e antipático “sabe com quem está falando?” seriam modos de enfrentar essas contradições e paradoxos de modo tipicamente brasileiro. Ou seja: fazendo uma mediação também pessoal entre a lei, a situação onde ela deveria aplicar-se e as pessoas nela implicadas, de tal sorte que nada se modifique, apenas ficando a lei um pouco desmoralizada – mas, como ela é insensível e não é gente como nós, todo mundo fica, como se diz, numa boa, e a vida retorna ao seu normal...