O papel da escola no brincar - Kamila Kimus Esteves Regadas

A família é o primeiro grupo social que a criança conhece e do qual recebe influência. Atualmente, muito cedo, a criança é inserida num segundo grupo, formado por outras crianças e adultos: as escolas.

A instituição de Educação Infantil constitui-se em um dos ambientes de desenvolvimento da criança. Ela não pode ser pensada como instituição substituta da família, mas como ambiente socializador diferente do familiar. Além de prestar cuidados físicos, ela cria condições para seu desenvolvimento cognitivo, simbólico, social e emocional. Nela se dá o cuidado e a educação de crianças pequenas que ali vivem, convivem, exploram e conhecem, construindo uma visão de mundo e de si mesmas. 

A ação pedagógica deverá favorecer os trabalhos de grupo, pois ao interagir com seus pares a criança tem seu ponto de vista confrontado, sendo que em situações discordantes se sentirá motivada a rever suas ideias, argumentar ou retificar. Neste momento é importante a mediação do docente, fazendo com que ela reflita sobre o que está acontecendo sem dar soluções prontas.  É nas situações de conflito que se dá oportunidade para que as crianças reflitam e cheguem a uma conclusão, exercendo desta forma sua autonomia. A essência da autonomia é que as crianças tornem-se aptas a tomar decisões por si mesmas.

Como diz Rubem Alves, “o conhecimento só ocorre em situações-problema (...) Pensamos quando nossa ação foi interrompida. O pensamento é em seu momento inicial, uma tomada de consciência de que a ação foi interrompida: este é o problema. Tudo o que se segue tem por objetivo a resolução do problema, para que se continue como antes (...) O estudante deve entender o problema. Mas não basta que ele o entenda. É necessário que ele deseje a solução... A solução é o caminho que o levará de onde você está ao lugar onde você deseja ir”.

Questionar as crianças não só nos momentos de conflito como também em situações que esteja conversando e brincando estimula o seu raciocínio. Interagindo com outras crianças e adultos, o processo de socialização tente a se acelerar e faz com que a criança se defronte com questões de ordem emocional, afetiva e intelectual com maior frequência, o que leva a construir sua identidade e traçar os rumos para a conquista da autonomia. 

A participação do professor nas brincadeiras com a criança eleva o nível de interesse pelo enriquecimento que proporciona, podendo também contribuir para o esclarecimento de dúvidas referentes às regras das brincadeiras, mas é indispensável que se respeite o momento de cada descoberta feita pela criança neste mundo mágico que é o brincar. É importante também que ele a observe brincando, em que muitas se sentem mais à vontade para conversar e representar diversas situações. 

Para incentivar a brincadeira, o professor também precisa saber de suas possibilidades e limitações, desbloquear resistências e ter uma visão clara sobre a importância do jogo e do brinquedo para a vida da criança e até mesmo do adulto. Assim ele resgata a alegria e o prazer do brincar.

Para se efetivar um trabalho assim é preciso haver um ambiente propício à aprendizagem. Deve ser um espaço organizado, um ambiente com regras de convívio; e o mais importante, saber ouvir e atender à criança, proporcionando liberdade de expressar sentimentos e opiniões, estimulando e motivando o grupo. Outro fato é que os professores devem buscar sempre aprimorar sua prática pedagógica. 

A integração social deve possibilitar à criança a sistematização da experiência vivida, a partir de várias formas de expressão (falada, dramatizada, gráfica – desenho, plástica); vivenciar regras de jogos para facilitar a tomada da consciência das mesmas, facilitando assim a organização do pensamento.

É importante que o adulto saiba e compreenda que a criança tem necessidade de brincar, de jogar por jogar, pelo simples prazer. Brincando ela aprende novos conceitos, adquire informações, desenvolve-se intelectualmente, socialmente e emocionalmente. 

Enfim, “brincar é uma das atividades fundamentais para o desenvolvimento da identidade e da autonomia. O fato de a criança, desde muito cedo, poder se comunicar por meio de gestos, sons e mais tarde representar determinado papel na brincadeira faz com que ela desenvolva sua imaginação. Nas brincadeiras as crianças podem desenvolver algumas capacidades importantes, tais como a atenção, a imitação, a memória, a imaginação. Amadurecem também algumas capacidades de socialização, por meio da interação e da utilização e experimentação de regras e papeis sociais. (...) Quando utilizam a linguagem do faz-de-conta, as crianças enriquecem sua identidade, porque podem experimentar outras formas de ser e pensar, ampliando suas concepções sobre as coisas e pessoas ao desempenhar vários papeis sociais ou personagens” (do Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil).

Com a brincadeira a criança expressa a forma de como reflete, constrói e reconstrói o mundo a sua maneira e é também um espaço onde pode expressar, de modo simbólico, suas fantasias, desejos, medos, sentimentos e os conhecimentos construídos a partir da experiência vivida. 

O que se espera de uma instituição de Educação Infantil é que, com as brincadeiras e situações do cotidiano, se estimule o desenvolvimento geral do aluno, os sentidos, o raciocínio lógico, a capacidade de comunicação e de socialização com os colegas e adultos. É uma fase ótima para incentivar autoconfiança, criatividade e passar noção de limites e respeito ao próximo entre outros.  Não se pode esquecer, é claro, que o estímulo da família é fundamental durante este processo.

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*Kamila Kimus Esteves Regadas é pedagoga, especialista em Educação Infantil e professora da Educação Infantil do Centro Educacional Serra dos Órgãos (CESO). E-mail: kkesteves@hotmail.com