Papel de seda na janela - Carmem Lucia Quintana Pinto

A lembrança do papel de seda, vermelho, em formato de flor, casa, nuvem e tudo o que a memória insiste em reproduzir - talvez criar - veio através de uma aluna do primeiro período do curso de Ciências Contábeis do UNIFESO. 
 
Contou, com voz embriagada por uma doce e nostálgica felicidade, que o que lhe ficara da longínqua pátria onde estudara as primeiras letras fora uma janela que se abria para um céu quase sempre cinzento, em cuja vidraça os alunos colavam imagens vermelhas recortadas em folhas de papel de seda. 
 
Sua recordação bailava entre crianças que se sentavam no chão para recortar figuras no vermelho, odores das carteiras de madeira, frio do tapete de borracha e desejo da luz no vermelho. Sensações que misturavam vozes, cinzas, galhos de árvore, risos baixos, pedaços de vermelho, raios de sol, tesoura fria.
 
Tudo contou, com brilho nos negros olhos de vinte e poucos anos, enfatizando que recortar o papel era antecipar o prazer da janela decorada contra o céu cinzento do inverno à espera da luz fraca do sol, milagre capaz de dar vida à figura. 
 
Percorri os caminhos de sua imaginação e, quando ela se calou, perguntei-lhe por que todas as crianças recortavam papéis vermelhos e por que eles só eram colados nas janelas. Ela me respondeu que assim ficava tão bonito que era impossível esquecer. Só isto: tão bonito que sempre se repetia, a cada ano, num processo de renovar-se para não deixar esquecer. 
 
A lembrança assaltou-me neste inverno que se inicia e se mesclou às matrizes do pensamento e da linguagem, objeto de trabalho de quem envereda pelos caminhos da Comunicação. 
 
Como produzir presença em momentos em que a comunicação não se faz face a face? Como aquecer a comunicação quando a distância física e temporal cada vez mais se faz presente? Como, enfim, entender que smartfhones roubam a cena e a atenção até de grupos que se encontram reunidos na praça de alimentação de um shopping?

 
Volto à estudante de Contábeis. Sua longínqua pátria estava mais presente do que nunca. A matriz visual – cores do papel de seda, janela envidraçada emoldurando um céu acinzentado –   ainda estava com ela e ainda está comigo que ouvi seu relato há uns três ou quatro anos, não importa. 
 
A matriz auditiva – burburinho dos colegas em um idioma familiar a ela, mas não a mim; risos de felicidade, familiares a nós duas – também não se perdeu. Como não se perderam a sua voz descrevendo o frio do chão, os tapetes, as paredes, o cheiro de madeira, a escola, a espera e a presença da luz projetada no vermelho: escolha vocabular, matriz verbal.
 
Muitos estudantes já relataram parte de suas histórias e delas me lembro como fragmentos de autorias incertas. Mas o relato da aluna que, sabiamente – provavelmente não tecnicamente – uniu as três matrizes para apresentar uma lembrança está completa na minha memória: não faltam detalhes, rosto da autora, emoções por ela expressas. 
 
Procuro, desde então, avaliar a presença das três matrizes naquilo que nos marcam: uma cena de um filme, uma despedida, um momento de fraternidade, um contato entre gestores e funcionários, uma aula escrita para a educação a distância, uma propaganda; enfim, um momento. 
 
Como profissional que lida com a comunicação, em especial com a comunicação interpessoal, conhecer e usar essas matrizes tem sido uma arma da qual me valho no dia a dia. Sedução? Talvez. Até porque sedução pode ser lida como a capacidade de despertar simpatia, interesse, persuasão. 
 
E não é exatamente isso que está presente em todos os momentos descritos acima? Ah... faltou um dado! Vocês perceberam? Exato: a história!
 
A estudante me contou um episódio da sua história. Os momentos que descrevi são partes de histórias de vida. A propaganda utiliza histórias para vender seus produtos; na verdade, acaba vendendo histórias que carregam produtos. 
 
As três matrizes ancoradas em uma história (syorytelling, na acepção atual) produzem presença, pertença, estar-junto. Talvez por isso a monotonia caótica da praça de alimentação de um shopping não seja páreo para o que acessamos no smarthfone. 
 
E quantas histórias, produzidas com o auxílio das três matrizes, contamos no Facebook? Quantas no WhatsApp? E quantas ainda, recheadas dessas matrizes, já produzimos para o ensino, para treinamentos, para aprimorar ou.. (maliciosamente)... para criar ruídos na comunicação?
 
Aqui a imagem do papel de seda na janela se mistura a possibilidades ainda pouco exploradas de comunicação pessoal ou empresarial, tais como:  ambientes imersivos a exemplo do Second Life (espécie de outra vida que assumimos quando nos transformamos em um avatar e interagimos em uma empresa virtual onde é possível resolver conflitos e produzir ideias). Ou como o uso dos storytellings (histórias) para a produção de conteúdo em treinamentos a distância, em aulas, na venda de produtos e assim por diante. 
 
Se soubesse de todo esse desdobramento para sua história-lembrança, a estudante do papel de seda talvez perguntasse surpresa: Foi tão bonito assim o que contei? Será que serviu de exemplo para alguém colocar papel de seda em sua janela e aguardar o raio vermelho de sol brilhar através dele?
 
Não sei responder, só sei que sempre me maravilho com o espetáculo do cinza mesclado pelo sol, em janelas físicas ou virtuais, e isso se tinge com as cores, sons e palavras da história que, cada vez mais, se torna longínqua e presente. 
 
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*Carmem Lucia Quintana Pinto é doutora e mestra em Língua Portuguesa, licenciada em Letras e professora dos cursos de Administração e Ciências Contábeis do UNIFESO.